Economia e Licença Paternidade Estendida Combinam?

Saiu em 4/2/16 a excelente notícia de que o Senado permitiu ampliação de 5 para 20 dias da licença-paternidade (para empresas cadastradas no ‘Programa Empresa Cidadã’). Falta agora a sanção da presidenta.

ATUALIZAÇÃO: Dilma sancionou essa lei em 8/3/16 =)

Achei engraçado alguns comentários na notícia perguntando “onde estão as feministas agora?!”. UÉ, nós estamos aqui comemorando, meus caros!
Nossa pauta inclui paternidade ativa, criação de laços entre pais e filhos e desconstrução do estereótipo de que ‘pai é quem provê e mãe é quem cria’.
E ainda achamos pouco. A licença paternidade deveria ser estendida mais que isso, para pelo menos o mesmo número de meses que a mãe tem.

Mas num país onde muitos homens dizem que “não teriam nada pra fazer em casa” no período de licença 20 dias já é um avanço sim. Como é o caso da foto abaixo, na qual o indivíduo acha que o pai não tem nada pra fazer com um recém nascido em casa e deveria estar produzindo no mercado de trabalho.

Post no Facebook de um empresário sobre a decisão do Senado.

Post no Facebook de um empresário sobre a decisão do Senado.

O detalhe é que o cidadão que fez o post é empresário, ou seja, ele é responsável por empregar pessoas e já podemos imaginar como ele encarará o novo direito de seus funcionários.

Aqui cabe a discussão sobre retroalimentação entre machismo e capitalismo, na qual pode-se argumentar que a divisão sexual do trabalho sustenta estereótipos de gênero que podam ou mesmo impedem que os homens tenham rotinas mais próximas de seus filhos e sobrecarregam as mulheres no processo.
Está mais que claro que esse modelo precisa mudar, não só pelas mudanças recentes no comportamento social e surgimento de novos paradigmas, mas também porque já existem pesquisas e estudos de caso comprovando que funcionários mais felizes produzem mais. Afinal, o próprio argumento econômico acaba por sustentar a transformação necessária no mercado de trabalho.

A mudança social trouxe com ela mudança na visão sobre satisfação e qualidade de vida das pessoas no mercado de trabalho, afetando assim produtividade e busca por empresas que melhor adequem o novo perfil.
Enquanto o autor no print diz que o país precisa produzir, nós dizemos que produziremos ao máximo quanto melhores foram as condições de trabalho, e isto inclui oferecer aos pais a oportunidade de colaborar com afeto e tarefas tais quais a mãe colabora.

Nesse cenário o pai não ‘ganha’ por ficar em casa ‘sem ter o que fazer’, ele ganha porque pode participar com a mãe da ligação com o filho. Enquanto isso, a mãe ganha porque sabe que em um lar onde está conseguindo dividir as tarefas voltar a trabalhar não vai ser tão dolorido, talvez até sua dupla/tripla jornada passe a não existir da maneira que via em suas antepassadas. E aí já são 2 pessoas com melhores condições de produtividade. Parece positivo para uma economia em crise, não?

 

No final, não ganham só os autores de post como os do print, mas os amigos dele também, donos de outras empresas em outros setores: os empregadores das mães.

 

Ganhamos todos, só não vê quem não quer.

 


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De mulher a feminista: o que muda no dia 8 de março?

Li hoje que o dia é das mulheres e não das feministas. Claro que a pessoa que escreveu isso tinha opiniões bem divergentes das minhas, mas tenho que concordar que existem diferenças em viver esse dia como mulher e viver esse dia como feminista.

Que podemos ser mulheres e não necessariamente nos declararmos feministas nós já sabemos, mas o que muda no Dia Internacional da Mulher?

Primeiro, as feministas sabem que esse dia é na realidade O Dia Internacional pela Luta da Mulher, um dia para relembrar trabalhadoras mortas há mais de um século, durante o incêndio da fábrica na qual praticavam greve. É o dia de relembrar a vida e morte de milhares de mulheres que lutaram pelo direito ao voto, ao divórcio, às leis reprodutivas, ao uso de anticoncepcionais, às leis de violência doméstica e tantas outras ferramentas que tivemos que construir para proteger de alguma maneira as mulheres da sua própria sociedade (sim, incluo aqui homens e outras mulheres).

Em 1908, 15.000 mulheres marcharam em Nova York exigindo a redução de horário, melhores salários e direitos de voto.

Em 1908, 15.000 mulheres marcharam em Nova York exigindo a redução de horário, melhores salários e direitos de voto.

Segundo, as feministas geralmente passaram por um processo que une alguma situação de discriminação/assédio/estupro/violência com aprendizado/estudo/autoconhecimento que as faz terem impressões físicas e emocionais para com a luta das mulheres passadas. Por todo histórico desse dia e por terem estudado o que ele representa em termos de conquistas, receber flores e um agrado está longe de ser o presente ideal. Não porque não gostamos de presentes, mas porque sentimos que agrados não terminam com nossa situação desigual.

É preciso uma promessa de construção diferente como sociedade, paulatina, de longo prazo e efetiva, para que nos sintamos satisfeitas.

Terceiro, as feministas sabem que tendo a percepção descrita acima sobre esse dia, passar por ele significa ouvir/ler generalizações sobre nosso gênero, provocações sobre a existência de um dia para mulher e não para homem, questionamentos sobre a diferença salarial, piadas sobre nosso comportamento e ironias sobre nossas supostas ‘vantagens’ na sociedade. E ter que responder, explicar, argumentar muito calmamente para tentar evitar ainda o rótulo de ‘histérica’ e ‘irracional’.

Passar o dia 8 de março como feminista é muito mais difícil do que passar como mulher, embora mulheres (feministas ou não) sofram todo tipo de violência de gênero todos os dias.

Porque exige da nossa paciência, do nosso emocional e da nossa capacidade de diplomacia.

Ainda sim, convido as mulheres não declaradamente feministas a passarem esse dia como nós, feministas. Nos leiam, nos absorvam, nos reflitam.

O dia 8 de março nunca mais será o mesmo para vocês, mas essa é só uma das coisas que queremos mudar para sempre.


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